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Dia desses, estava no trabalho, no meio da tarde, meu telefone toca. Era a Sarah, uma amiga dos tempos da escola, me mandando mensagem. Não somos de trocar mensagens todos os dias, ainda assim, estamos bem cientes de nossa amizade, portanto receber uma mensagem dela, não me causaria espanto.

Mas não dessa vez, ao ler a mensagem da Sarah, parei tudo o que estava fazendo para respondê-la, dizia ela na mensagem:

Na hora em que li a mensagem dela, respondi de imediato,

Naquele momento, minha amiga precisava de colo, de um ombro, uma resposta. Ao menos era assim o que eu pensava. As mensagens de Sarah naquele dia, me surpreenderam de forma que me fizeram abrir os olhos, para uma atitude que me incomodava em outras pessoas. Mas será que eu não faço igual?

Dentre alguns de seus relatos, Sarah me dizia sobre o quanto havia ficado magoada com uma vizinha que também era sua amiga. Enquanto ela contava a vizinha, sobre seus incômodos, chateações e decepções com a vida, essa a interrompia, dizendo para não se lamentar e olhar para o lado bom das coisas, afinal ela (Sarah) tinha um bom casamento, dois filhos ótimos, já estava formada e com um bom emprego e agora está construindo sua casa,” sua vida, não é de todo ruim“. Já no meu caso… ( disse a tal vizinha).

Sarah me contou, sobre o quanto havia ficado chateada, afinal ela não era de se abrir para outras pessoas, e diante das lamentações da amiga, considerou guardar sua dor no bolso e tentar entendê-la.

Enquanto eu lia as mensagens de Sarah, mandava pequenas respostas, se é que se pode chamar emojis de respostas, para que ela soubesse que eu estava ali e que compreendia sua fala.

Entre uma conversa e outra, parei por um tempo e comecei a pensar sobre tudo que eu lia, tudo o que “ouvia” e pensei, ” Se fosse na clínica, se a Sarah ao invés de minha amiga, fosse minha cliente, e chegasse a mim, relatando essa situação, como eu me comportaria?”

Estou certa de que, muitos estudantes de psicologia, já se pegaram em situação semelhante, enquanto conversavam com alguém, buscando na memória, algo na teoria que poderia ajudar a responder a aquele relato.

Eu buscava por uma resposta, a melhor resposta, iguinorando por completo o pedido inicial dela, que era simplemente de ser ouvida.

O tempo todo, o que foi deixado era que ela buscasse alguém que a escutasse, assim como a tal amiga não fez, eu estava a um passo de fazer igual, me preparando para responder, enquanto que a única coisa que ela buscava eram um par de ouvidos e não uma sucessão de respostas prontas e de senso comum, do tipo ” não fique assim, isso passa“, ou “ as pessoas são assim mesmo, amiga, egoístas”.

Estava a um passo de repetir o mesmo comportamento, que outras pessoas fazem comigo e de que tanto me irritam, com alguém que acaba de me me pedir um auxílio, estava prestes a calar sua voz.

Quantas vezes não fazemos isso, quantas vezes será que já caímos nessa armadilha, não apenas de não ouvir, mas de preparar uma resposta enquanto o outro ainda está falando.

Acreditamos que boas conversas são assim, você fala eu escuto e te respondo.

Observe sua próxima conversa, ou de alguém por perto, um fala o outro responde quase que instantaneamente, isso quando não interrompe.

Ainda é muito difícil para as pessoas, compreenderem o trabalho de um psicologo, em seu trabalho na clínica afinal, como o ato de falar pode surtir algum efeito?

Acontece que, não estamos acostumados a ouvir e por vezes preparamos nosso discurso em nossos pensamentos, assim um fala para o vento e outro conversa com a própria cabeça, e assim seguimos em conversas individuais.

O que será que poderíamos fazer então?

Dizer a verdade, seria um ótimo começo. Oferecer ajuda, também é algo valoroso, desde que o outro tenha de fato vindo buscar ajuda.

A Sarah, minha amiga, buscava alguém que a escutasse, não estava me pedindo ajuda para saber lidar com a amiga, ou o que poderia fazer para conseguir iguinora-lá ou ainda, não havia pedido resposta para nenhum de seus relatos, apenas disse e era o que esperava desde o inicio.

Em alguns momentos as pessoas só querem falar mesmo, esse seria uma ótima oportunidade para aprender a ouvir. Mas para isso, as vezes é preciso calar.

***

Ana Paula
Ana Paula
Gosta de gente, de ouvir e de falar. Ama um áudio longo, café e chá. Tereré também, anota aí na lista, e mais um tanto de outras coisas que até Deus dúvida.. Há, é psicóloga também, pode indicar. E caso precise, pode com a Ana contar ;)

2 Comments

  1. Ana Rosa disse:

    Então, um conversa um tanto interessante pois as vezes precisamos de alguém p/ nós ouvir e não queremos opiniões e só o ouvido mesmo.
    Isso e um tanto difícil pq as vezes não encontramos a pessoa certa e aí vamos carregando nossas nossa angústia , da qual nós faz tanto mal.

  2. Luiz Guilherme disse:

    Meus Parabéns, voce escreve muito bem fico muito orgulhoso de você…Jaja nasce um livro <3

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